A roupa branca na capoeira: mais que vestimenta, um símbolo de identidade

Dentro da capoeira, a vestimenta vai além da estética. Ela diz muito sobre o estilo de jogo, a linhagem e até as crenças de quem joga. Assim como acontece na sociedade em geral, o que se veste dentro da capoeira também carrega identidade.
Cada grupo pode chamar o uniforme de um jeito. Em certos lugares, ele é conhecido como “abadá”, palavra que, no iorubá, se referia originalmente a uma túnica ou roupa larga e confortável, geralmente usada por homens muçulmanos africanos, especialmente na África Ocidental.
Por outro lado, sabemos que a roupa dos escravizados era feita, em sua maioria, de sacos que transportavam açúcar, farinha, café e outros produtos. Eram apenas pedaços de pano usados para cobrir o corpo.

Em um certo momento da capoeira moderna, passou-se a usar um tecido chamado “algodãozinho”, o mesmo usado na confecção dos sacos, que depois de alvejados, viravam calças para jogar capoeira.
Com o tempo e a evolução da indústria têxtil, malhas sintéticas começaram a ser usadas. A malha helanca logo se espalhou e passou a ser usada em todo o país.
Nas obras de Calixto, da década de 1900, é possível notar o uso de calças com boca de sino pelas maltas de capoeira. Até o fim do século XX, a moda era usar calças de boca larga, algo muito ligado à influência da Marinha na capoeira.
Marinheiros usavam esse tipo de calça por ser prática: facilitava o movimento, podia ser arregaçada com facilidade e, em caso de queda no mar, até servia como boia improvisada. Numa época com pouca tecnologia têxtil, calças largas também favoreciam os movimentos dos capoeiristas. Além disso, ajudavam no manuseio ou saque das armas brancas, que eram muito comuns entre os capoeiristas da época.

Segundo Waldeloir Rego, no livro Capoeira Angola, a padronização das roupas dos grupos é algo recente. Isso porque, sendo a capoeira uma prática marginalizada por muito tempo, os capoeiristas evitavam qualquer coisa que os identificasse como parte dela.
O capoeirista usava a roupa da sua época, de acordo com sua condição socioeconômica. Diz-se que costumavam usar calça pantalona com boca de sino, camisa comprida por cima da calça e um lenço de seda no pescoço, para proteger de navalhadas.
No cais do porto, era comum ver os capoeiristas mais famosos com a roupa típica do trabalho: calça comum com a bainha arregaçada, pés descalços e camisa tipo abadá. Mais tarde, essas camisas deram lugar às camisetas de meia.
Já aos domingos, feriados e dias santos, quando havia folga, a aparência mudava. O negro sempre teve preferência pelo traje branco, talvez por influência religiosa, e jogava com tanta habilidade que não sujava, de jeito nenhum, a roupa de “domingueira”.

Com o tempo, as academias passaram a usar camisas de diferentes cores para se distinguir, como os times de futebol.
Mestre Pastinha criou o uniforme da capoeira angola inspirado no seu time do coração, o Esporte Clube Ypiranga, em 1941, quando fundou o Centro Esportivo de Capoeira Angola (CECA). O uniforme era composto por camisa amarela e calça preta, cores do Ypiranga, tradicional clube baiano.
Essa escolha mostrava o desejo de Pastinha de organizar e valorizar a capoeira angola, trazendo mais disciplina, respeito e uma identidade visual clara para a prática.

Dentro da linhagem do Projeto Fuzuê, segundo relatos do mestre Índio Mocambo, o uso de uniformes brancos e graduações foi introduzido pelo mestre Melo. A primeira calça era preta, assim que o aluno se graduava e pegava o cordão verde, ele trocava a calça preta pela branca. Funcionando também como uma iniciativa de gerar uma renda extra.
As rodas de capoeira de rua ainda refletem a história. Hoje, muitos capoeiristas usam roupas feitas com tecidos de alta tecnologia e grande flexibilidade. As calças de boca larga já não são tão comuns; o que mais se vê são calças justas ao corpo.
E, em muitas rodas e academias, o uso de bermudas continua não sendo visto com bons olhos.
Porém, assim como Waldeloir Rego mencionou, ainda hoje, numa roda de capoeira de rua, o capoeirista será visto usando a roupa da sua época, de acordo com sua condição socioeconômica e, em certas ocasiões, será visto com suas melhores roupas, na mais alta elegância.
